20 de Julho de 1997
Estava tudo pronto. Estavámos em Lisboa. Recordo-me de estar no aeroporto e de tentar perceber qual era a sensação de voar. Tinha sentimentos difusos. A minha melhor amiga não ia viajar comigo. Mas eu ia-me reencontrar com outra amiga minha: uma espécie de irmã que conheci e descobri nestes últimos dois anos de faculdade. Estava ansiosa. Já não a via há umas semanas. Tinha saudades dela. Das suas certezas, da sua objectividade. Ela sabia o que queria e eu sabia que o ia conseguir. Tinha sempre um sorriso, uma observação pertinente, uma piada inteligente.
Na fila do checkin: quatro mulheres e um monte de malas. Eu estava de partida com a Inês, a Maria e a Mafalda: um bando de mulheres divertidas e sei que todas procurávamos alguma coisa naquela viagem. Eu sei o que eu procurava. Queria descobrir o mundo, conhecer pessoas, conhecer sentimentos. Conhecer um lugar de que tinha ouvido falar nos últimos dois anos, onde eu sabia que pertencia. Estranho, mas era esse o sentimento. Eu nunca lá tinha estado mas sentia que fazia parte de mim.
Descobri, mal levantamos voo, o que era ter borboletas na barriga. Só queria que não fossem embora. Queria que aquela ansiedade, o bater depressa do coração, aquele calor crescente que me tingia as faces de escarlate, durasse indefinidamente. Foi uma viagem animada. Cheia de risos, de olhares cúmplices entre nós. Um bando e mulheres a viajar durante uma semana. Uma viagem aos Açores.
O momento do voo foi quando nos serviram uma refeição embalada. Era horrível. Comentámos entre gargalhadas que o que sabia bem era uma feijoada! Rimos como perdidas.
Descobrimos a casa de banho! Um compartimento enorme... onde mal nos conseguíamos mexer. Até isso foi motivo de risinhos histéricos.
O tempo passou rápido com tanta parvoíce. E avistamos as ilhas de bruma.
UAU... O meu sentimento de pertença aumentou! Como era possível? Eu nunca lá tinha estado e era como se já lá tivesse vivido. Estranho.
Começamos a descer e eu vi o mar quase a tocar na asa do avião. Uma ilusão que aumentou o número de borboletas dentro de mim. E vi a pista de aterragem. Não maior que trinta centímetros. Uma imagem aterradora. Uma paisagem verde, deslumbrante esperava por nós. Trezentos milhões de borboletas enormes batiam dentro de mim. Em cada milímetro do meu corpo. Fechei os olhos. Enterrei - me no banco. E achei que aquele era o meu derradeiro momento.
Não tinha dito à minha mãe o quanto a amava. Não sabia o que era amar alguém sem ser a minha mãe. Não a tinha abraçado e lhe tinha dito o que ela era importante para mim. Eu, nunca ia ser mãe e sentir o que ela sentia por mim.
Abri os olhos e senti o chão debaixo de mim. A pista aumentou e passou a ter quilómetros. E, nos segundos seguintes, soube que eu, Sofia, 20 anos, tinha sobrevivido. Eu ia abraçar a minha mãe outra vez.
Tive a sensação que renasci. O medo fez-me renascer. O avião parou. E agora? As borboletas ainda batiam dentro de mim. Aos milhares.